sexta-feira, 8 de março de 2013

MULHERES DESENVOLVENDO O MUNDO...




Além da Graça Foster, da Petrobras, apenas três ocupam a cadeira da presidência quando são consideradas as 64 empresas cujas ações compõem o índice Ibovespa.

Anna Christina Ramos Saicali comanda hoje a B2W (que reúne Americanas.com e Submarino), Dilma Pena, a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e Ana Maria Machado Fernandes, o grupo EDP (empresa do setor de energia elétrica).
Em outras companhias, como na Totvs, aparece uma ou outra vice-presidente.
"A maior parcela dos presidentes é proveniente do setor comercial das empresas, área em que há poucas mulheres. Elas costumam ir para administração ou marketing", diz a professora da FGV Denise Delboni.
"A gravidez também afeta. Elas se afastam por um período, enquanto os homens continuam avançando."
Além da presença reduzida nas principais posições, as mulheres que ocupam cargos de alta gerência continuam recebendo menos.
O setor que apresenta maior desigualdade hoje é o de seguros, segundo a Michael Page, empresa de recrutamento corporativo.
"Seguros é uma área tradicionalmente masculina, onde as mulheres foram entrando aos poucos e hoje começam a ocupar cargos gerenciais, mas estão nos de menor importância", diz Sérgio Sabino, responsável pelos estudos da Michael Page no Brasil.
Nesse setor, o sexo feminino ganha apenas 34% do valor dos salários dos homens em cargos gerenciais.
Em seguida, aparece o varejo como segundo pior segmento para as mulheres.
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'Nos EUA, menos de 15% dos CEOs são mulheres'
Nem nos Estados Unidos a presença feminina na cúpula das companhias é lá muito animadora. "Menos de 15% dos CEOs de empresas listadas nos índices americanos de ações Dow Jones e Nasdaq são mulheres", diz Debora Spar, presidente do Barnard College, da Universidade Columbia, em Nova York.
"Nos conselhos dessas companhias, só 15 ou 16% dos assentos são ocupados por mulheres." Para a professora, uma mudança significativa desse cenário nos Estados Unidos ainda vai levar "pelo menos uma década."
Na Europa, o panorama é um pouco melhor, segundo Spar. "Alguns países adotaram cotas para garantir a presença feminina nos conselhos das empresas. Mas ainda não chegam a 50%".
"As cotas não são a melhor estratégia para os EUA. Não gostamos de cotas de nada neste país. Não é bom conseguir um cargo apenas porque há cotas."
O avanço virá, diz. "Talvez não tão rápido quanto desejássemos. Aqui nos EUA, a pressão de dentro das empresas e da mídia funcionará mais do que cotas."
Dar autoconfiança às meninas é essencial. "Mas também educá-las para serem líderes, com capacidades necessárias como administração e negociação."
Fundado em 1889, o Barnard College foi uma das primeiras faculdades do mundo a oferecer um currículo focado em liderança exclusivamente para mulheres.
Todo ano, o Barnard realiza simpósios para levantar questões de gênero, em especial as relacionadas ao mercado de trabalho. Os encontros anteriores foram na China, na África do Sul, em Dubai e na Índia.
Em diferentes setores e com velocidade diversa, as mulheres vêm avançando, observa Spar nos seminários realizados pelo mundo.
"Na Índia, por exemplo, os progressos foram mais notados entre mulheres que trabalham no setor financeiro. Na África do Sul, elas foram bem no governo, mas não tanto no setor privado", relata a professora.
Pequenas iniciativas nas empresas, como uma sala para retirada de leite podem ajudar muito, de acordo com a professora.
"Mulher Maravilha: Sexo, Poder e a Busca por Perfeição" é o título provisório de seu próximo livro, que deverá ser lançado em setembro próximo.
O evento deste ano, intitulado "Women Changing Brazil" (Mulheres que Mudam o Brasil) será presidido por Spar, em São Paulo, no próximo dia 18.
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Saúde
Mulheres que trabalham fora são menos cuidadosas com a saúde, de acordo com pesquisa feita pela operadora do setor Omint.
O levantamento mostra que 5,5% das trabalhadoras não realizaram mamografia -exame que deve ser feito anualmente- em 2012. Entre as donas de casa, a parcela é de 2,3%.
A diferença é maior no caso de ultrassonografia de mama: 18,6% das mulheres ativas no mercado não se submeteram ao exame. A porcentagem é de 4,5% entre as que trabalham em casa.
O Papa Nicolau foi feito por todas as donas de casa pesquisadas. No outro grupo, 5,7% passaram o ano sem realizá-lo.
"Não é considerado um percentual alto se olharmos para as estatísticas do país. Mas chama a atenção o fato de que se trata de um publico qualificado, com boa formação e acesso a plano de saúde", afirma Caio Soares, diretor médico da operadora de saúde.
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Financiamento feminino
As mulheres já representam mais da metade das operações de microcrédito, conforme números de algumas instituições bancárias.
Nas operações do Santander, elas são responsáveis por aproximadamente 70% da carteira de clientes da instituição na modalidade.
"Os índices de adimplência da nossa operação, por exemplo, são de cerca de 96,5%, mas o pagamento em dia é ainda melhor quando olhamos só a base de clientes mulheres", afirma Jerônimo Ramos, superintendente do Santander.
No Banco do Brasil, mais de 360 mil mulheres fizeram pequenos empréstimos -o que representa cerca de 60% do total de clientes de microcrédito.
No Itaú, o percentual de de mulheres na carteira de microcrédito é de 62%.
"A intensa participação feminina na carteira reflete o perfil empreendedor que muitas têm", afirma Eduardo Ferreira, superintendente do Itaú Microcrédito.
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Igualdade... O número de mulheres no comando de franquias brasileiras é quase igual ao de homens, segundo a consultoria especializada em franchising Rizzo.
...na franquia Dos 133.599 franqueados ativos até o final do ano passado, 51,4% eram homens e 48,6%, mulheres.
Óleo... A Petrobras aumentou a contratação de mulheres em 120% nos últimos nove anos. Segundo informação da empresa, o crescimento da admissão de mão-de-obra masculina foi de 60% no mesmo período.
...e batom De um total de 6.653 gerentes, as mulheres ocupam hoje 1.104 cargos de gerência, aproximadamente 17%.
Mandatárias Além da presidente da Petrobras, Maria das Graças Silva Foster, a companhia conta com a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, no conselho de administração.

Por: Maria Cristina Frias
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mercadoaberto/1242698-mulheres-presidentes-ainda-sao-poucas-no-pais.shtml

HUGO CHÁVEZ - O NOTÁVEL REFORMADOR


O Brasil tem um ponto em comum com a Venezuela: o brutal desequilíbrio social. Havia outro até data recente, representado pela extraordinária semelhança entre a mídia venezuelana e a brasileira, uma e outra a serviço da oligarquia e da treva, sempre e sempre dispostas a inventar, omitir e mentir. Se hoje não há como alegar esta inglória parecença, é porque Hugo Chávez, ao contrário do governo do Brasil, decidiu enfrentar o inimigo.
Populista? Por que lutou contra o neoliberalismoe a favor dos desvalidos? Por que defendeu a unidade latino-americana e o petróleo do seu país? Por que tirou muitos venezuelanos da miséria e erradicou o analfabetismo? Foto: Juan Barreto/AFP
Populista? Por que lutou contra o neoliberalismo
e a favor dos desvalidos?
Por que defendeu a unidade latino-americana
e o petróleo do seu país?
Por que tirou muitos venezuelanos da miséria
e erradicou o analfabetismo? Foto: Juan Barreto/AFP
No momento, mais da metade dos órgãos de comunicação venezuelanos são públicos, o que permite restabelecer um razoável equilíbrio entre as forças envolvidas nesta guerra. As palavras guerra e inimigo estão longe de ser exageradas. O ataque ao governo de Dilma Rousseff é feroz e diuturno, assim como foi a Lula e a Chávez. A mídia nativa, aliás, continua na ofensiva contra o líder venezuelano e celebra sua morte como se o odiado inimigo tivesse tombado no campo de batalha.
As razões são óbvias. Chávez, como Lula e Dilma, mexeu com os interesses da minoria privilegiada. Há diferenças entre o venezuelano e os brasileiros, ao contrário destes, aquele recorreu a formas autoritárias de poder. Mesmo assim, tratou-se de um formidável reformador e de um incentivador da unidade latino-americana a bem da independência do subcontinente, enfim livre da condição de quintal dos Estados Unidos.
Nem tudo na atuação de Chávez merece admiração, mas seus méritos estão expostos à luz do sol. Leio as diatribes ficcionais da nossa mídia, dizem que se tratou de um déspota populista. A definição é tão imprópria quanto foi batizar de “terrorista” quem lutou contra a ditadura civil-militar. Populista porque nacionalista ao defender o petróleo de seu país como fez Getúlio Vargas em 1952 ao criar a Petrobras? Ou populista porque condenou firme e inexoravelmente o neoliberalismo?
Tropecei na quarta 6 de março no delirante editorial da Folha de S.Paulo, que condenava o “populista” Chávez por causa do seu peremptório não ao neoliberalismo. Ora, ora, mas não foi a religião do deus mercado que nos mergulhou na maior crise econômica, política e social dos últimos dois séculos? Algo não menos assustador do que as epidemias de peste negra da Idade Média.
Ah, claro, populista por ter tirado da miséria uma larga fatia de venezuelanos, e por ter garantido assistência médica e hospitalar a todos os concidadãos, e por ter erradicado o analfabetismo. Tal é a linha da mídia nativa, exército dos barões. O jornalismo há de se basear no respeito da verdade -factual, no exercício do espírito crítico e na fiscalização do poder. Os barões midiáticos e seus regimentos desrespeitam a verdade factual e submetem o espírito crítico aos seus dogmas e preconceitos. Quanto à fiscalização do poder, cuidam de investir de arma em punho contra quem ali está há dez anos, depois de ter elevado à glória dos altares o governo tucano de FHC e tornado motivo de culto todas as suas mazelas.
Creio não ser árduo perceber que estamos a assistir, há dez anos, a uma ofensiva bélica, em pleno desrespeito às regras éticas do jornalismo e do senso de responsabilidade imposto pela consciência da cidadania. Não nos defrontamos simplesmente com uma mídia a serviço da oposição, e sim com uma artilharia capaz de executar seu bombardeio sem solução de continuidade.
De uns tempos para cá, me ocorre, de quando em quando, perguntar aos meus perplexos botões se o governo tem vocação de mulher de apache. Estão pasmos, admitem, com tanta leniência, ou paciência, ou resignação. E se declaram perdidos como um pesqueiro ao largo da costa escocesa, em uma madrugada invernal a 20 graus abaixo de zero, em meio à névoa mais espessa e sem apito. Aos leitores sugerem uma pausa de meditação à página 16 desta edição, para inteirar-se da reflexão de Mauricio Dias na sua Rosa dos Ventos.
Ali, entre outras considerações muito oportunas, Mauricio evoca uma entrevista que ambos fizemos com Hugo Chávez, em 2006. Recordo um maciço indivíduo, de carisma explosivo e fala fluente, a dizer coisas que faziam sentido.

POR: Mino Carta
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/notavel-reformador/

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

DE CADA 10 PESSOAS, 6 NÃO TEM ACESSO A SANEAMENTO


Condições adequadas de higiene são desafio em grande parte do planeta e levam a prejuízos nos sistemas públicos de saúde

Esgoto sem tratamento sendo despejado no rio Poxim em Aracaju, Sergipe
Problemas com saneamento podem favorecer aparecimento de doenças como hepatite e cólera (Luis Carlos Moreira)
Seis em cada dez pessoas não possuem acesso a saneamento adequado. O dado, divulgado pela Sociedade Americana de Química (ACS) no último sábado, corresponde à média mundial, calculada a partir de pesquisa realizada em 167 países. Segundo o estudo, 40% da população global utiliza formas improvisadas de saneamento e mais de 4 bilhões não possuem acesso a algumas facilidades, como sanitários com descarga.


A publicação classifica como saneamento adequado condições que possam proteger os usuários e o ambiente ao redor de efeitos prejudiciais à saúde, como o contato direto com excrementos. Nesta classificação não estão incluídas medidas mais elaboradas, como tratamento de esgoto ou ações que evitem a contaminação de rios, lagos e oceanos.



Segundo a pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Direito Sanitário da USP, Luciana Vieira Seixas, a situação identificada pelo estudo pode provocar doenças e mortes. “As diarreias respondem por mais de 50% das doenças relacionadas ao saneamento básico inadequado”, diz. “A ausência de saneamento básico também favorece doenças como a hepatite A, a febre tifóide, a cólera, a giárdia e os salmonelos.”



Panorama preocupante - Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas não possuem facilidade alguma quanto ao saneamento, e são obrigadas a fazer suas necessidades a céu aberto. Entre os índices mais baixos de acesso estão a África Subsaariana e o sul da Ásia, onde, respectivamente, 70% e 59% da população não têm contato com métodos mais aprimorados de saneamento.



No ranking dos piores países da OMS, o Níger ocupa a primeira posição, com apenas 9% da população beneficiada. Países como Bélgica, Canadá e Dinamarca apresentam 100% de acesso ao saneamento. O Brasil fica no meio do ranking, com 79% da população alcançada. “Cerca de 1,5 milhão de crianças morrem a cada ano de doenças diarreicas, uma média de 5.000 por dia. Grande parte dessas doenças são evitáveis por meio de saneamento adequado e melhor higiene”, diz Luciana.


Opinião do especialista

Luciana Vieira Seixas
Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Direito Sanitário da USP

“Segundo dados do ranking realizado pelo Instituto Trata Brasil, as regiões Norte e Nordeste do País tiveram as menores parcelas de domicílios atendidos por saneamento básico, com 13,5% e 33,8%, respectivamente, do total de domicílios da região. A região com maior índice de esgoto tratado é a Centro-Oeste, com 43,1%. Sabe-se que as doenças causadas pela falta de saneamento básico são responsáveis por 65% das internações no Sistema Único de Saúde (SUS). Investir no saneamento básico de um país acarreta em grandes economias no que diz respeito à Saúde Pública como um todo.”


Fonte: http://veja.abril.com.br/noticia/saude/de-cada-dez-pessoas-seis-nao-tem-acesso-a-saneamentoutm_source=redesabril_veja&utm_medium=twitter&utm_campaign=redesabril_veja&utm_content=feed&

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

ALTERAÇÕES NO PIB DOS ESTADOS BRASILEIROS



PIB dos municípios 2010 (Foto: Editoria de Arte/G1)
O alto preço das commodities minerais em 2010 fez com que capitais como Rio e São Paulo perdessem lugar na participação do PIB nacional em relação a 2009. Sem indústria extrativista, com uma indústria de transformação estagnada e tendo nos serviços o suporte da economia, as capitais perderam para municípios produtores de minério de ferro e manganês, que  aumentaram sua participação no PIB em 2010, segundo os dados divulgados na manhã desta quarta-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Paraupebas, no Pará, Itabira e Ouro Preto, em Minas Gerais, cidades produtoras de minério de ferro, aumentaram sua participação nas contas nacionais em 0,2% e 0,1% respectivamente, segundo Sheila Zani, gerente da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE, enquanto que o Rio teve um recuo de 0,2% e São Paulo 0,3%.
Segundo Sheila, a participação das capitais na composição do PIB nacional – que em 1999, quando o IBGE iniciou a pesquisa, chegava a quase 39% – a partir de 2003 estabilizou-se em 34%, por conta da valorização das commodities.
“Enquanto o estado do Rio mostra estabilidade na indústria, o município teve perda do valor adicionado do setor industrial. A indústria que cresce é a extrativa, que floresce no estado, mas não no município.São Paulo passa pela mesma situação”, explicou Sheila.
Embora com menos força que as minerais, as commodities agrícolas também tiraram espaço das capitais na composição do PIB. Os destaques são Cristalina, em Goiás, com uma agricultura diversificada que inclui café, trigo, alho e feijão; Petrolina, em Pernambuco, cuja cultura irrigada permite boas safras de uva, goiaba e manga, que por sua vez se beneficiaram do alto preço no mercado, principalmente a uva.
Produtores de algodão, milho e soja como São Desidério, na Bahia, Uberaba, em Minas, e Rio verde, em Goiás, também apresentaram as maiores participações no valor adicionado da agricultura.

Administração pública e serviçosSegundo Sheila, o peso da adminsitração pública no PIB em 2010 era superior a um terço em 35,6% dos municípios brasileiros (1.980 municípios). Segundo a pesquisa do IBGE, Norte e Nordeste concentram municípios com grande dependência da máquina administrativa. O setor de serviços corresponde a dois terços da formação do PIB nacional e, nesse segmento, as maiores participações são das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.  
Sheila Zani, gerente da Coordenação de Contas Nacionais do IBGE (Foto: Lilian Quaino/G1)Sheila Zani, gerente da Coordenação de Contas
Nacionais do IBGE (Foto: Lilian Quaino/G1)
54 cidades concentram 50% do PIBApenas 54 municípios – dos cerca de 5,5 mil existentes no Brasil – concentravam cerca de 50% do PIB do país em 2010, segundo o IBGE. Na outra ponta, outras 1.325 cidades, juntas, detinham 1% do total.
“Nesta faixa, estavam 75% dos municípios doPiauí, 61,4% dos municípios da Paraíba, 50,9% dos municípios do Rio Grande do Norte e 48,9% dos municípios do Tocantins”, aponta o estudo do IBGE.
Somados, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília concentraram 20,8% dos R$ 3,77 trilhões do PIB daquele ano. A fatia, no entanto, foi menor que no ano anterior: em 2009, os três municípios foram responsáveis por 21,4% do PIB. A participação de São Paulo – que seguiu no primeiro lugar do ranking dos maiores PIBs do país –, caiu de 12% para 11,8%; do Rio, de 5,3% para 5%; e de Brasília, de 4,1% para 4%.
No ranking dos seis municípios que mais geraram renda em 2010 estão ainda Curitiba e Belo Horizontex, com 4,1% cada, e Manaus, com 1,3%. Juntos, os seis responderam por 25% de todo o PIB brasileiro naquele ano.
Menores PIBs
Na outra ponta, dois municípios do Piauí registraram os menores PIBs do país em 2010: Santo Antônio dos Milagres, com R$ 7,2 milhões, e Miguel Leão, com R$ 8,8 milhões. São Félix doTocantins (TO), Viçosa (RN) e Quixabá (PB) completam a lista dos cinco menores
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Fonte: http://g1.globo.com/economia/noticia/2012/12/commodities-fizeram-rio-e-sp-perder-lugar-na-composicao-do-pib-diz-ibge.html

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

7 conflitos atuais causados por diferenças religiosas


Por Jessica Soares
Colaboração para a SUPERINTERESSANTE
Depois da II Guerra Mundial, a ONU adotou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que colocava em pauta o “respeito universal e observância dos direitos humanos e liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião”. O ideal foi reforçado em 1999, ano em que líderes budistas, protestantes, católicos, cristãos ortodoxos, judeus, muçulmanos e de várias outras religiões se reuniram para assinar o Apelo Espiritual de Genebra. O documento pedia aos líderes políticos e religiosos algo simples: a garantia de que a religião não fosse mais usada para justificar a violência.
Passados muitos anos e outras muitas tentativas de garantir a liberdade religiosa, grande parte dos conflitos que hoje acontecem no mundo ainda envolve crenças e doutrinas, que se misturam a uma complexa rede de fatores políticos, econômicos, raciais e étnicos. De “A a T”, conheça sete conflitos atuais que têm, entre suas motivações, a intolerância religiosa:
1. Afeganistão
Grupos em conflito: fundamentalistas radicais muçulmanos e não-muçulmanos
O Afeganistão é um campo de batalhas desde a época em que Alexandre, o Grande, passava por lá, em meados de 300 a.C. Atualmente, dois grupos disputam o poder no país, em um conflito que se desenrola há anos. De um lado está o Talibã, movimento fundamentalista islâmico que governou o país entre 1996 e 2001. Do outro lado está a Aliança do Norte, organização político-militar que une diversos grupos demográficos afegãos que buscam combater o Regime Talibã.
Após os atentados de 11 de setembro de 2001, a Aliança do Norte passou a receber o apoio dos Estados Unidos, que invadiram o Afeganistão em busca do líder do Al-Qaeda, Osama Bin Laden, estabelecendo uma nova república no país. Em 2011, americanos e aliados comemoraram a captura e morte do líder do grupo fundamentalista islâmico responsável pelo ataque às Torres Gêmeas, mas isso não acalmou os conflitos internos no país, que continua sendo palco de constantes ataques talibãs.
2. Nigéria
Grupos em conflito: cristãos e muçulmanos
Não é apenas o rio Níger que divide o país africano: a população nigeriana, de aproximadamente 148 milhões de habitantes, está distribuída em mais de 250 grupos étnicos, que ocuparam diferentes porções do país ao longo dos anos, motivando constantes disputas territoriais. Divididos espacialmente e ideologicamente estão também os muçulmanos, que vivem no norte da Nigéria, e cristãos, que habitam as porções centro e sul. Desde 2002, conflitos religiosos têm se acirrado no país, motivados principalmente pela adoção da sharia, lei islâmica, como principal fonte de legislação nos estados do norte. A violência no país já matou mais de 10 mil pessoas e deixou milhares de refugiados.
3. Iraque
Grupos em conflito: xiitas e sunitas
Diferentes milícias, combatentes e motivações se misturam no conflito que tem lugar em território iraquiano. Durante os anos de 2006 e 2008, a Guerra do Iraque incluía conflitos armados contra a presença do exército dos Estados Unidos e também violências voltadas aos grupos étnicos do país. Mas a retirada das tropas norte-americanas, em dezembro de 2011, não cessou a tensão interna. Desde então, grupos militantes têm liderado uma série de ataques à maioria xiita do país. O governo iraquiano estima que, entre 2004 e 2011, cerca de 70 mil pessoas tenham sido mortas.
4. Israel
Grupos em conflito: judeus e mulçumanos
Em 1947, a ONU aprovou a divisão da Palestina em um Estado judeu e outro árabe. Um ano depois, Israel foi proclamado país. A oposição entre as nações árabes estourou uma guerra, que, com o crescimento do território de Israel, deixou os palestinos sem Estado. Como tentativa de dar fim à tensão, foi assinado em 1993 o Acordo de Oslo, que deu início às negociações para criação de um futuro Estado Palestino. Tudo ia bem até chegar a hora de negociar sobre a situação da Cisjordânia e da parte oriental de Jerusalém – das quais nem os palestinos nem os israelenses abrem mão.
Na Palestina, as eleições parlamentares de 2006 colocaram no poder o grupo fundamentalista islâmico Hamas. O grupo é considerado uma organização terrorista pelas nações ocidentais e fracassou em formar um governo ao lado do Fatah – partido que prega a reconciliação entre palestinos e israelenses. O Hamas assumiu o poder da Faixa de Gaza. E o Fatah chegou ao da Cisjordânia, em conflitos que se prolongaram até fevereiro de 2012, quando os dois grupos fecharam um acordo para a formação de um governo. Mas segundo o site da Al Jazeera, rede de notícias do Oriente Médio, a rixa continua. Eleições parlamentares e presidenciais serão conduzidas nos dois territórios e a tensão internacional permanece pela possibilidade do Hamas voltar a vencer no processo eleitoral.
5. Sudão
Grupos em conflito: muçulmanos e não-muçulmanos
A guerra civil no Sudão já se prolonga há mais de 46 anos. Estima-se que os conflitos, que misturam motivações étnicas, raciais e religiosas, já tenham deixado mais de 1 milhão de sudaneses refugiados. Em maio de 2006 o governo e o principal grupo rebelde, o Movimento de Libertação do Sudão, assinaram o Acordo de Paz de Darfur, que previa o desarmamento das milícias árabes, chamadas janjawid, e visava dar fim à guerra. No mesmo ano, no entanto, um novo grupo deu continuidade àquela que foi chamada de “a pior crise humanitária do século” econsiderada genocídio pelo então secretário de estado norte-americano Colin Powell, em 2004.
6. Tailândia
Grupos em conflito: budistas e mulçumanos
Um movimento separatista provoca constantes e violentos ataques no sul da Tailândia e criou uma atmosfera de suspeita e tensão entre muçulmanos e budistas. Apesar dos conflitos atingirem os dois grupos, eles representam parcelas bastante desiguais do país: segundo dados do governo tailandês, quase 90% da população do país é budista e cerca de 10% muçulmana.
7. Tibete
Grupos em conflito: Partido Comunista da China e budistas
A regulação governamental aos monastérios budistas teve início quando o Partido Comunista da China marchou rumo ao Tibete, assumindo o controle do território e anexando-o como província, em 1950. Mais de meio século se passou desde a violenta invasão, que matou milhares de tibetanos e causou a destruição de quase seis mil templos, mas a perseguição religiosa permanece. Um protesto pacífico iniciado por monges em 2008 deu início a uma série de protestos no território considerado região autônoma da República Popular da China.

sábado, 24 de novembro de 2012

CESSAR-FOGO É VITÓRIA DO HAMAS A CURTO PRAZO



O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, mediado pelos Estados Unidos e pelo Egito, pode se tornar, a médio prazo, uma vitória importante para o grupo palestino. Ainda não é possível dizer se a trégua iniciada às 17 horas desta quarta-feira 21 será mantida, e nem por quanto tempo, mas caso os itens previstos no documento divulgado pelo governo egípcio sejam cumpridos, o Hamas sairá desta crise menos isolado diplomaticamente e mais forte entre os palestinos, pois será capaz de dizer que rompeu o bloqueio imposto por Israel há cinco anos. A implementação do cessar-fogo, no entanto, é que vai determinar a “vitória” do Hamas.
Pelo acordo firmado, Israel deve cessar todos os ataques por terra, ar e mar contra a Faixa de Gaza, incluindo os “assassinatos cirúrgicos”, como o que matou Ahmed Jabari, líder do braço militar do Hamas, na semana passada. Em troca, o Hamas precisa garantir que todos os grupos militantes da Faixa de Gaza parem os ataques na região da fronteira. Não será uma missão fácil. O Hamas e a Jihad Islâmica, segundo grupo mais importante de Gaza, devem parar automaticamente os lançamentos de foguetes, mas o Hamas precisará garantir que outras facções, ainda mais radicais, façam o mesmo. Como muitos desses grupos vinham desafiando o papel do Hamas na “resistência” a Israel (ao realizar ataques contra militares e cidades israelenses), é provável que a liderança exercida pelo grupo nos últimos dias sirva para acalmar esses setores mais radicais.
Com a bandeira do Egito, que mediou o cessar-fogo, palestinos celebram a trégua na cidade de Gaza, nesta quarta-feira 21. Foto: Mahmud Hams / AFP














Caso o cessar-fogo seja mantido pelas duas partes, às 17 horas desta quinta-feira 22 devem ter início as negociações a respeito da “abertura das passagens (na fronteira), da facilitação de movimento de pessoas, transferência de mercadorias e restrição de movimento de residentes” na Faixa de Gaza.
Na prática, a implementação dessas medidas significa colocar fim ao bloqueio mantido por Israel contra a Faixa de Gaza desde 2007, quando o Hamas tomou o controle da região. Ao longo do tempo, Israel vem reduzindo as restrições do bloqueio, mas ele continua em vigor. Esse cerco é condenado internacionalmente, até mesmo por aliados de Israel, como os Estados Unidos e o Reino Unido.
Esta posição ficou clara nas palavras de Hillary Clinton, secretária de Estado dos Estados Unidos, ao anunciar o cessar-fogo. Hillary lembrou que, além de garantir a segurança da população de Israel, é preciso “melhorar as condições da população de Gaza”. O ministro do Exterior do Reino Unido, William Hague, seguiu na mesma direção de Hillary. “A prioridade agora é lidar com as causas do conflito, incluindo um acesso maior ao comércio para e de Gaza, assim como de assistência humanitária, e um fim ao contrabando de armas”, afirmou. A constatação desses países é simples: ao isolar a Faixa de Gaza, Israel fortaleceu o Hamas, radicalizou ainda mais a população local e piorou as condições de vida na Faixa de Gaza. Ainda que a intenção do fim do bloqueio seja enfraquecer o Hamas, o grupo radical poderá apresentar aos palestinos a liberação como uma conquista.
Este feito, se concretizado, será particularmente importante pois aumentará a legitimidade do Hamas entre os palestinos, não apenas em Gaza, mas também na Cisjordânia, controlada pelo Fatah, grupo secular opositor do Hamas. O Fatah ficou isolado durante os últimos dias e pouco participou das negociações para o cessar-fogo, perdendo espaço para o Hamas como líder da causa palestina. No fim do mês, o líder do Fatah, Mahmoud Abbas, deve apresentar na ONU um pedido de reconhecimento da Palestina como Estado não-membro, mas é grande a pressão para que ele desista.
Para celebrar a vitória, o Hamas terá um grande desafio durante a implementação do acordo. Hoje, grande parte dos armamentos do grupo palestino são oriundos do Irã e chegam por meio da Península do Sinai, uma região do Egito que faz fronteira com a Faixa de Gaza e com o sul de Israel, sobre a qual o governo egípcio tem pouquíssimo controle. O cessar-fogo exige, como contrapartida ao fim do bloqueio, que o contrabando de armamentos pela região seja combatido. Estados Unidos e Egito devem trabalhar juntos neste aspecto, mas ainda não se sabe como e se o fim do tráfico será efetivo. O Hamas pode encarar o enfraquecimento de seu arsenal como um avanço ruim, mas precisará escolher o que deseja. Israel não vai reduzir o bloqueio e manter abertas as portas do contrabando de armas.

Para o governo de Israel, apresentar a promessa de combater o tráfico de armas para Gaza como uma vitória após oito dias de conflito é uma tarefa difícil. A desconfiança a respeito do Hamas é enorme na sociedade israelense. Uma pesquisa do Canal 2 de Israel levada ao ar após o anúncio da trégua apontou que 70% da população era contra o cessar-fogo. Dois ministros de Netanyahu, Yuval Steinitz (Finanças) e Eli Yishai (Interior), eram contra o cessar-fogo, assim como líderes opositores, como Shaul Mofaz e Tzipi Livni, ambos do centrista Kadima.

Por isso, as três principais autoridades de Israel, o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e seus ministros Ehud Barak (Defesa) e Avigdor Lieberman (Exterior), tentaram retratar a operação dos últimos dias como um sucesso militar. Em pronunciamento, eles disseram que a infraestrutura do Hamas foi destruída e trataram como triunfo a morte de Ahmed Jabari. “Sei que há cidadãos esperando uma operação militar mais intensa, mas agora a coisa certa para o Estado de Israel é aproveitar a oportunidade de um cessar-fogo duradouro”, disse Netanyahu. O primeiro-ministro pode ter razão. Netanyahu fomentou o confronto com o Hamas para se aproveitar do sentimento de união da sociedade israelense tendo em vista as eleições de janeiro. Sua imagem de líder duro saiu fortalecida e, caso o cessar-fogo tenha efeito, ele fará questão de lembrar que a trégua garantiu a segurança da população do sul de Israel, alvo dos foguetes palestinos. Caso contrário, Netanyahu estará pronto para retomar a ofensiva com uma fúria ainda maior.
Todos esses ganhos de curto e médio prazo para o Hamas podem assustar quem teme o grupo. Eles não necessariamente significam uma avanço positivo para a paz entre israelenses e palestinos, mas podem ser o início de um processo de longo prazo. O Hamas está menos isolado e mais influenciado por líderes regionais moderados, como Egito e Turquia, mas continua a ser um grupo antissemita, que rejeita a existência de Israel e todos os acordos para a paz assinados até hoje. Esta postura é um entrave muito grande para a retomada do processo de paz e, caso persista, continuará a dar razão ao governo de Israel, que rejeita negociações diretas com o grupo palestino. Nos próximos dias, o Egito, com apoio dos Estados Unidos, vai intermediar o diálogo entre Israel e Hamas. Os desafios são enormes. Além de tentar moderar o Hamas, rompendo a lógica perversa que alimenta o radicalismo dos dois lados, será preciso sustentar os esforços para a paz por um bom tempo e manter o ímpeto dos negociadores. Em tempos normais, já seria complicado. Diante do pedido de reconhecimento na ONU, das eleições em Israel, da instabilidade interna do Egito, da crise na Síria e mesmo da situação precária da economia mundial, o desafio será maior ainda. Por isso, todo o ceticismo é recomendável.
FONTE: http://www.cartacapital.com.br/internacional/cessar-fogo-e-vitoria-do-hamas-a-curto-prazo/

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

POPULAÇÃO MUNDIAL: O QUE PENSA A ONU?



Em outubro de 2011, a ONU anunciou que a humanidade tinha atingido a marca de sete bilhões de pessoas. Oito meses depois, em junho, a mesma entidade revelou que 222 milhões de mulheres no mundo querem evitar a gravidez, mas não têm acesso a métodos contraceptivos modernos. Dessas, 162 milhões estão nos 69 países mais pobres do mundo, especialmente em áreas rurais.
Para o diretor-executivo do Fundo de Populações das Nações Unidas, o nigeriano Babatunde Osotimehin, isso mostra que a demografia não é um destino. Em entrevista à Folha, ele defendeu a importância de garantir às mulheres meios de decidir se e quando ter filhos como forma de desacelerar o crescimento populacional e dar mais qualidade de vida para as pessoas. Mas alertou: apenas a redução da taxa de natalidade não será suficiente para garantir o desenvolvimento sustentável do planeta.
Leia os principais trechos da entrevista:
Folha - Muitos estudos científicos mostram que estamos ultrapassando vários limites do planeta, ao mesmo tempo em que a população mundial cresce em ritmo acelerado. Que tipo de perspectiva essas duas realidades trazem para a humanidade?
Babatunde Osotimehin - Quando se fala dos desafios ambientais e das mudanças climáticas, a resposta não está apenas no crescimento populacional. Neste exato momento em que conversamos, a parte do mundo que está contribuindo com a maior pegada de carbono não é o mundo em desenvolvimento, onde a população cresce. É muito importante ter isso em mente. Por outro lado, nesses locais onde a população está crescendo a aspiração é chegar à classe média e ter um consumo similar ao que existe no mundo desenvolvido hoje. Por isso precisamos de um novo paradigma para tratar dessa questão, por isso se fala tanto na economia verde.
De qualquer forma, desacelerar o crescimento da população parece importante...
Sim, e para isso é fundamental dar condições para mulheres e meninas fazerem suas próprias escolhas. É preciso assegurar que elas tenham acesso aos serviços de saúde reprodutiva, especialmente ao planejamento familiar, para que possam optar por ter apenas o número de filhos de que possam cuidar. Isso fará diferença não apenas para as mulheres, mas também para os orçamentos domésticos e para os países.
O que o senhor achou do fato de que, por pressão do Vaticano, a menção aos direitos reprodutivos femininos acabou excluída do documento final da Rio+20 [Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, que ocorreu em junho no Rio]?
Eu prefiro ver o copo meio cheio, não meio vazio. Quando o primeiro rascunho do documento foi divulgado, ele sequer mencionava a palavra saúde [a redação final fez menção à saúde reprodutiva]. Então trilhamos um longo caminho até aqui. E o documento final reitera a agenda que resultou da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento, a agenda do Cairo. Isso significa que os direitos reprodutivos estão citados de forma implícita.
Quando se fala dos problemas ligados ao crescimento da população, muita gente os associa às previsões de Malthus [que dizia que a expansão da produção de alimentos não iria acompanhar o ritmo de expansão da população e aconselhava a abstinência sexual para diminuir a natalidade]. O senhor vê similaridades?
O malthusianismo não tem nada a ver com as discussões atuais. O jeito que abordamos a questão do crescimento populacional é diferente. Hoje muitos países têm políticas e programas específicos para o tema. O Brasil é um exemplo. Em 30 anos, o número de filhos por mulher caiu consideravelmente. E o mesmo está acontecendo em muitos outros países. Quanto mais conseguirmos engajar os governos, mais o que aconteceu aqui vai acontecer também em outros lugares.
Relatório recente divulgado pelo UNFPA destaca que a média das projeções populacionais apontam que seremos 10 bilhões ao fim do século, mas há estimativas que chegam a 16 bilhões...
A demografia não é um destino. A questão é o que faremos para não ultrapassar essa projeção média. Precisamos dar o poder de escolha para as mulheres. Mas muitos países no sul global ainda têm uma população muito jovem e assistirão ao crescimento de suas populações. Só que ele não será tão rápido como tem sido se as medidas necessárias forem tomadas.
Por outro lado, o envelhecimento da população também é um problema.
Essa é outra questão que deve ser abordada. Alguns países no mundo já estão elaborando políticas sociais para garantir que a população envelheça com dignidade. Porque isso vai ter consequências nas aposentadorias, nos serviços sociais, no sistema de saúde, na habitação, nos transportes... É algo para o qual não estamos preparados. E claro que esses países também vão perder competitividade. A produtividade vai cair porque eles não vão ter o mesmo contingente de jovens na indústria, nos serviços... Por isso, alguns países já estão fazendo esforços para rejuvenescer suas comunidades. A Dinamarca, por exemplo, conseguiu elevar o número de filhos por mulher, que estava abaixo de 2 e agora está em 2,1 ou 2,2. E isso só foi possível porque criaram uma série de políticas amigáveis para as mulheres, com licenças maternidade mais longas, segurança no trabalho e instalações para crianças nas proximidades dos locais de trabalho. Cada país tem que achar a solução para os seus desafios.
O senhor falou da perda de produtividade decorrente do envelhecimento da população, exatamente num momento em que o mundo precisa aumentar a produtividade para alimentar sua população crescente sem aumentar a pressão sobre recursos naturais. Isso não torna o desafio ainda mais difícil?
Isso nos leva de volta à questão da economia verde. No hemisfério sul há muitos jovens que estão em busca de educação, em busca de empregos, e eles podem ajudar a aumentar a produção de alimentos e de outros bens sem causar desequilíbrios ao meio ambiente. Não podemos esquecer que vivemos em um mundo globalizado, onde muito possivelmente as maçãs que são comidas em Nova York foram produzidas na África do Sul.
E qual o papel que a ciência e a tecnologia terão nesse novo cenário?
Um papel crucial. Em meados dos anos 60, havia uma previsão interessante de um dos maiores pesquisadores do mundo sobre população. Ele dizia que a Índia iria colapsar porque não seria capaz de alimentar sua população em crescimento. Mas a produção de comida na Índia cresceu tremendamente. E as tecnologias para aumentar a produção agrícola vão continuar a fazer diferença no futuro. Tem também a questão da água. Vamos ter que desenvolver tecnologias que nos permitam utilizar a água de forma melhor.
Quando se fala sobre crescimento populacional, o foco sempre está nas mulheres. Claro que são elas que dão à luz os filhos, mas o senhor não acha que deveria haver uma tentativa de envolver mais os homens nessa discussão?
Você está absolutamente correta. Nós sabemos que muitas decisões tomadas tanto no nível macro quanto no micro têm a participação dos homens. Em algumas culturas, até mesmo a decisão de a mulher ir para o hospital ou tomar medicamentos depende do homem. É essencial envolvê-los na discussão.
Em muitos países, questões religiosas e culturais acabam funcionando como uma barreira ao planejamento familiar. Como mudar isso?
Essas questões têm que ser abordadas com base na realidade de cada país. Temos que engajar os governos e as partes interessadas para garantir acesso aos serviços. É preciso fazer um diagnóstico de cada comunidade para ver qual a melhor forma de fazer isso.
E o senhor acha que o aborto deveria ser uma opção para uma mulher que teve uma gravidez indesejada?
O Fundo de População da ONU apoia o que já foi acordado na ONU, de que nos países onde o aborto é legal, ele tem que ser seguro. Mas é importante enfatizar que, se formos capazes de atender as necessidades das mulheres por planejamento familiar, vamos reduzir os abortos, porque elas terão o poder de fazer escolhas antes que seja tarde demais.

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/1160727-a-demografia-nao-e-um-destino-diz-diretor-do-fundo-de-populacao-da-onu.shtml